Estava eu a vagar
por essa imensa cidade
cinza,
todos os tons a brilhar.
O Céu era nublado e parecia não haver esperança.
A rotina me consumia,
já não prestava atenção na vida.
Tudo ocorria da mesma maneira,
muito cinza.
Eu achava que era feliz,
em meio a sofrimentos.
Não esperava nada de diferente,
ou talvez esperasse,
sem saber se era possível.
Um dia,
em meio a cinzetude inabalável da fortaleza de concreto,
vejo algo estranho no céu.
Do meio das nuvens,
daquele céu nublado
vem caido algo por terra.
Veio se aproximando,
em minha direção.
Não deu pra perceber o que era
até pousar desastradamente em meus braços,
não sem antes tropeçar
num vento que soprava.
Tinha comigo um frágil pássaro.
Tão majestoso.
Estava ferido,
parecia implorar por minha ajuda.
Aos poucos fui me envolvendo nos cuidados do pequeno pássaro.
E aos poucos também fui me apegando a ele.
Parecia que ele tinha vindo ao meu encontro de propósito,
certo de que eu seria capaz de curar suas feridas.
Logo o pássaro estava bem.
Nos tornamos íntimos,
à maneira que pássaro e menina podem ser.
Parecia que tínhamos nascido um pra outro.
Um pra cuidar, e outro para ser cuidado,
mas quem cuidava de quem?
Era tão bom estarmos juntos
e éramos tão felizes
que não conseguia nem imaginar não ter
aquele pássaro em minha vida
que, por sua vez, tornaria-se incompleta sem ele.
Meu apego e amor tornou-se doentio,
a intimidade dominou-me,
e a proteção do pássaro tornou-se a prioridade,
assim como o impedimento da distancia entre nós.
Sem perceber o coloquei em uma gaiola.
Todo o conforto e segurança.
Do que mais ele iria precisar?
Tudo ocorreu bem durante um tempo.
Entretanto, de repente,
o pássaro foi se entristecendo.
foi se distanciando de mim.
Eu não entendia o que acontecia.
O que não estava bem?
O que estava faltando?
Depois de muito tempo,
depois de nossa relação já não ser mais a mesma
finalmente percebi.
O pássaro queria voar,
queria de volta sua liberdade
que lhe é própria
do ser que não pertence a ninguém
além de si mesmo.
O cativeiro lhe foi bom,
mas sua essência o chamava,
e nem mesmo meu amor mais bastava.
Relutei por mais algum tempo,
amargo egoísmo.
Como poderia me separar do ser
que havia se tornado parte do meu próprio ser?
E diante da minha indecisão e medo da perda
de um amor profundo,
o pássaro foi se entristecendo cada vez mais.
Já não queria nem gostava das coisas de antes.
Não queria meus cuidados, nem meus carinhos.
Diante disso, relutei ainda mais um pouco,
eu também havia me entristecido muito.
E era assim a nossa relação,
a tristeza.
O que foi e o que não era mais.
Eu não conseguia entender
porque as coisas tinham se encaminhado para esse ponto.
Depois de muito sofrimento de ambas as partes,
o pássaro com seu triste olhar
me fez entender o que eu deveria fazer.
Com muita dor no coração,
e sentindo como se minha alma saísse do corpo,
abri a gaiola.
O pássaro andou em direção a portinhola
e antes de arremessar-se ao infinito, disse-lhe:
"Voe. Bata as asas e voe. Voe para longe..."
E lá se foi o pássaro.
Voou, voou...
...para longe de mim.
Foi em direção a um céu que já não era mais nublado,
mas de um profundo azul
de esperança.
E eu sozinha a olhá-lo e sem poder alcançar-lhe
só esperei
que ele voltasse,
que sentisse falta dos bons momentos,
os cuidados,
e possamos corrigir os erros
para viver apenas o sentimento.
E fiquei sozinha em terra,
apenas esperando...
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Pois é gente, estou postando já, menos de um dia depois do último texto.
Antigamente eu teria salvo esse texto e postado amanhã ou depois, para dar um intervalo.
Porém, o próprio propósito do texto me impele a divulgá-lo.
Minha inspiração corre, voa. Se ela resolveu voltar para mim, quem sou eu para lhe colocar em uma gaiola?
Deixemos o pássaro da liberdade guiar nossos caminhos, e não o contrário.
Saudações L.Hobbit.